Ciclos de pesca - Aquilo que muda durante o ano num pesqueiro

Já aqui aflorámos esta questão ao de leve, mas parece-me ser interessante voltar ao tema e aprofundar um pouco mais a questão dos ciclos de passagem de peixes numa determinada zona. Sucessivamente os nossos peixes de costa passam por ciclos de vida, que correspondem a necessidades vitais que têm de cumprir, tais como encontrar alimentação, reunir numa determinada área para reprodução em grupo, seguir cardumes de comida, ou pura e simplesmente escapar a condições desfavoráveis, tais como águas demasiado frias e por isso exigentes em termos de desgaste energético, zelar pela sua segurança, etc. Alguns destes ciclos são-nos mais ou menos familiares, entendemo-los. Outros nem tanto, porque não temos nem o conhecimento nem a totalidade da informação necessária. No fim de tudo, notamos que os peixes estão ou não estão onde costumamos encontrá-los, e normalmente não conseguimos perceber o porquê da sua ausência. É isso que vamos ver. Seguramente que haverá sempre uma razão clara, ou várias razões entrelaçadas, que nos permitem encontrá-los ou não na nossa zona de pesca. O pescador mais informado pode entender um pouco mais o que se passa, e utilizar isso em seu proveito próprio, sem dúvida. 



A maior parte das “ausências” dependem sobretudo das fracas condições de habitat que encontram para estarem por ali, onde é hábito estarem. Pois se tentamos os robalos num local de mar parado, maré baixa, com o sol a pino, digamos que às 13.00h, com céu limpo, e uma canícula de 40ºC, é natural que não estejam, ou no caso de estarem, estarão mais preocupados com questões de segurança e oxigenação das águas, do que eventualmente terão estado quando eram 6.00h da manhã, ao lusco fusco, com uma temperatura de 16ºC, e com a maré cheia. Há condições ideais para cada tipo de peixe poder esgrimir os seus argumentos e mostrar a sua eficácia. Digamos que se há ciclos diários que nos permitem encontrar ou não os nossos peixes activos, também ao longo do ano vai havendo variações do seu comportamento, e que nos trazem horas ou dias de febril actividade alimentar, em contraponto com horas e dias em que parece que não se alimentam de todo. Esses ciclos repetem-se ao longo das estações do ano, e compreendem factores tão diversos quanto alimentação, reprodução, deslocamentos longitudinais ao longo da costa, normalmente para seguirem comida, deslocamentos transversais, perpendiculares à costa no sentido da profundidade, e tudo aquilo que um peixe tem de fazer para se manter vivo, quando tudo e todos querem vê-lo morto. Sim, morto. Os peixes enquanto pequenos são comidos pelos grandes, para crescerem têm de superar todas as armadilhas que encontram no seu caminho, emboscadas e perseguições de outros predadores, redes, aparelhos, arrastões, e uma infinidade de obstáculos que tornam os nossos peixes uns super-heróis. Na verdade, haveria sempre mais razões para um peixe estar morto que vivo. A pressão a que são sujeitos é de tal ordem que é um milagre da natureza termos peixes para pescar. E no entanto esses “milagres” de resistência são o quotidiano dos nossos peixes. 



Se pensamos que em termos individuais um robalo, (espécie que escolhemos ao acaso porque poderíamos falar de qualquer outra), terá mais possibilidades de conseguir comida, pois apenas tem de caçar para si, digamos que encontrar um caranguejo, também é verdade que em grupo fazer um cerco a um cardume de sardinha será bem mais fácil. Se muitos de nós conhecemos alguns pesqueiros onde os robalos são muito regulares, onde estão quase sempre, isso deve-se ao facto de essas zonas disponibilizarem comida em abundância para mais que um peixe. A concorrência só deixa de fazer-se sentir quando a quantidade de alimento excede as necessidades do numero de predadores existentes. Nessa circunstância, um predador tolera a presença de outros. Digamos que fala mais alto o sentido de ficar numa zona com muita comida, pese embora existam outros concorrentes. Trata-se de uma tolerância de conveniência. 
Este ciclo apenas existe a espaços, e está bem perfeitamente enquadrado no tempo. Corresponde ao período em que o robalo acabou a sua reprodução e precisa de meter comida, de recuperar a quantidade de massa muscular que perdeu por semanas de inanição, ou alimentação deficitária, e precisa logo de seguida de preparar o ciclo que sucede, o da passagem de águas temperadas para águas muito frias. Ou seja, precisa de gorduras, e rapidamente. Sabemos que a reprodução dos nossos robalos estará situada, grosso modo, entre Dezembro e Fevereiro, o que quer dizer que acontece no términus do período de águas quentes, para o inicio de um ciclo de águas frias, que irá terminar posteriormente em Maio, Junho, ou mesmo Julho, dependendo dos anos. Gostaria que entendessem que estes ciclos estão todos eles balizados no sentido de maximizar o sucesso das posturas. Sabemos que as cavalas, ávidas comedoras de ovas pelágicas, se afastam das zonas costeiras nos meses de águas mais frias. Fazem migrações para sul, ou para cotas de maior profundidade, de forma a escapar ao rigor e desgaste energético provocado pelo arrefecimento das águas. É precisamente nesse momento que vale a pena aos outros peixes colocar ovos, porque têm mais chances de ser bem sucedidos. E é o que fazem os nossos robalos, as douradas, os sargos. Conheço alguns destes locais de postura e das concentrações de peixe que ali se formam. É dever de quem sabe destes sítios respeitar, protegendo, não pressionando de forma nenhuma espécies que se encontram ali na sua mais evidente demonstração de fragilidade. A postura de ovos é um momento sagrado, ou deveria sê-lo. 
O timing de desova pode ser ligeiramente adiantado ou atrasado em função das condições de mar, da presença de peixes predadores dessa mesma postura, e não deixa de ser curioso o quanto a presença ou não do peixe forragem, uma cavala, um carapau, influencia a postura do seu predador. O mais fraco pressiona o mais forte. Há um momento para perder mas a seguir vem um momento para ganhar. Chamamos a isto interacção e equilíbrio entre espécies. A abundância de uma condiciona a existência e números da outra. Posso dar-vos dois exemplos concretos: 
O mês de Outubro e Novembro traz-nos os grandes polvos das profundidades. A esta movimentação corresponde uma aproximação do seu predador mais activo, o safio. Ao primeiro sinal de actividade de mar, os primeiros temporais, corresponde uma chegada maciça de safios aos buracos nas rochas da costa. Esperam a chegada desses polvos, e sabem muito bem o que estão a fazer. Estes, defendem-se escolhendo tocas em rasgos de pedra apertados e colocando pedras roladas na frente do buraco escolhido para depositar a postura. À aproximação de um safio corresponde o imediato esforço do polvo em colocar as pedras a barrar a aproximação do predador. Funciona quase sempre, mas, quando eclodem os pequeninos e diminutos polvos, a sua progenitora está tão fraca e debilitada de defender os filhotes que acaba por morrer na toca, sendo então pasto dos safios que esperam pacientemente esse momento. Também os machos, alguns meses após a reprodução, acabam por morrer. Os polvos têm uma duração máxima de vida de dois a três anos, sendo corrente apenas dois. Ao longo deste período, crescem mais ou menos em função das condições de alimentação do local, sendo um polvo de 10 kgs considerado grande. 



Nos pesqueiros junto à costa, é muito frequente encontrar bancos de pequenos peixes a serem seguidos de perto por predadores. A distância nunca é tanta que os predadores possam perder de vista as presas, nem é tão curta que pressione estas a abandonar de imediato o local. Recordo-me de estar a mergulhar a sul da Comporta e encontrar um banco de sardinha anormalmente perto da praia, a não mais de 200 metros, sobre um fundo de 18 metros de profundidade. O comportamento das sardinhas foi abrigarem-se por debaixo de mim, coladas ao meu fato, formando uma bola com muitos milhares de peixes, que me cercaram por completo. Percebi que o fariam para se proteger de algo bem mais ameaçador, e resolvi procurar a razão de tanto “carinho”. A cerca de trinta metros para o largo, estava a razão que tinha levado as sardinhas a encostarem: uma parede com alguns milhares de robalos, não muito grandes, na casa do quilo de peso, com alguns, poucos, a chegar hipoteticamente aos dois quilos, e que estavam expectantes, a salivar a cena seguinte. É uma tela de mar pintada a uma única cor: cinza escuro. Também um pequeno cardume de atuns sarrajões entre os dois e três quilos passava a poucos metros da superfície, atento, paciente. Eu estava dividido entre ver como se iria desenrolar aquela cena, e abandonar o local de imediato. Nestes casos, a curiosidade impele-nos a ficar, a desfrutar, e basta afastarmo-nos um pouco, ficar a ver pelo canto do olho, não interferindo em nada, sem gestos bruscos, deixando que seja a natureza a decidir. E para as sardinhas não pode ter sido bom, levaram pancada, muita, mas é por isso que se reproduzem aos milhões, para aguentar aqueles momentos críticos como o que eu estava a observar. 
Falemos também de técnicas de pesca: se ter uma cana de jigging, pesca vertical, para procurar os robalos no fundo é compensador, pode também acontecer que os robalos se encontrem à superfície e por isso não valha a pena procurá-los no fundo. Logo, necessitamos de ter à mão uma cana de spinning, algo que nos permita lançar para cima daquele cardume de sardinha ou carapau miúdo que está a ser atacado pelos predadores. Quando vos falo de que levo um mínimo de cinco a seis canas cada vez que saio ao mar, é porque nunca sei em rigor qual a situação, ou situações, que irei encontrar com mais regularidade. Se tenho dias em que quero lançar longe para ferrar uns robalos desconfiados, também os tenho, e muitos, em que é preciso ir a 60 metros de fundo com um jig, para os encontrar. Com os robalos nunca se sabe, embora seja possível ter uma ideia geral, em função do ciclo que estamos a passar. E fixem este termo porque ele é importantíssimo: ciclo de vida. 
Uns dias os predadores estarão mais ao largo, outros dias encostados à praia ou às rochas, pois tudo depende do humor das sardinhas que, por sua vez, escolhem os seus itinerários de migração em função das suas conveniências. Seguramente elas não tentam passar descontraidamente pelo meio de um cardume de robalos! Mas têm de passar por algum lado, e aí, são seguidas e …pagam o preço da portagem. A questão que se coloca para um predador será sempre a mesma: escolher entre ficar num posto de caça promissor, fixo, que apresenta regularmente comida, …ou seguir um banco de comida? Se o local apresenta boas condições de segurança, e muita comida, pode tornar-se um posto habitual de caça. Nós temos em Setúbal um ponto estratégico em que regularmente se encontram robalos: as pedras das Três Irmãs, na Restinga, à saída do Sado. Pese embora seja um local pescado quase que diariamente, tem sempre peixe. Nas condições certas de maré, de hora do dia, é sempre possível encontrar peixes bons nesta zona. Porque o rio alimenta de robalos um posto de caça que tem tudo para que esses peixes sejam bem sucedidos: tem muita comida, muito peixe miúdo, tem uma zona de rocha alta muito perto, marcada com uma bóia vermelha, que dá protecção, e tem os fundões que chegam aos 43 metros, onde os robalos se encontram durante o dia. Não fosse a quantidade de redes que pululam no local e seria um perfeito spot de pesca ao robalo, acessível, perto, e compensador. Aquilo que eles necessitam é uma zona de abrigo da corrente, para pouparem energia, digamos uma pedra alta que os tape de esforços inúteis, e quantidade de comedia com fartura, que existe profusamente no rio. Sentem a passagem dos cardumes de pequeno peixe, saem de trás da pedra, comem, voltam a descansar. Quando estão cheios, baixam às zonas que lhes dão segurança. Este é o padrão. Se conseguirem descobrir um local destes com peixe de bom tamanho, robalos acima dos 2/ 3 kgs, tomem-no como referência, e podem extrapolar para outros locais na zona, porque também terão peixes. Pedras altas, paredes, rasgos na pedra, tudo serve. Mesmo construções humanas, paredões, marinas, tudo pode ser utilizado como local de caça. Movem-se dessas zonas por imposição das correntes e das marés. Mas voltam. Pescamos em águas rasas com um shad de vinil, com cauda vibratória, e em zonas mais fundas, com jigs, na vertical. O conjunto de pesca não é o mesmo, e por isso teremos sempre de ir prevenidos com equipamento para todas as situações. A nível de amostras, ter uma colecção de vinis ajuda a escolher o certo para aquele momento, em função da hora da maré e da corrente, e caso a solução seja pescar mais fundo, então será de bom tom ter jigs mais curtos e aplanados para pescar mais devagar, na ausência de corrente, para trabalhar com vibrações os diversos patamares em que pode estar o nosso alvo, ou, no caso de correntes mais violentas, optar por uma agulha, um jig estreito e comprido, que afunda muito rapidamente e nos permite encontrar a vertical em tempo útil, ou seja, antes de a linha ficar debaixo do barco. 
No fim de tudo, aquilo que limita a presença dos predadores que tanto procuramos, são as condições de mar, temperatura das águas, visibilidade, correntes, marés. Isso muda consoante a época do ano. Há momentos em que há condições para que o nosso peixe possa estar lá, e outros em que não, que é impossível. Falarei numa próxima oportunidade sobre oxigenação das águas, e a sua influência na presença de peixes. Esse grau de oxigenação também não é igual durante toda a época de pesca, porque depende de factores como a ondulação, a temperatura da água e as correntes. 
Também a actividade humana, pesca profissional em primeiro lugar mas também outros factores que podem influenciar, por exemplo uma zona que sirva para os miúdos novos de divertirem com motas de água será sempre um local menos apetecível, sobretudo para nós, pescadores. Mas não subestimem locais. Quando falamos de robalos, podem acontecer situações surpreendentes, trata-se de um peixe com um incrível sentido de oportunismo, e por isso, qualquer cais de desembarque de barcos de passageiros pode ser bom para montar uma emboscada a um cardume de pequenos peixes. Sim, no meio de todo aquele ruído, daqueles remoinhos provocados pelas pás dos hélices, pode estar o nosso robalo a caçar. Há que lançar e ver. As pessoas que fazem big-game sabem bem que uma das zonas mais produtivas para manter uma amostra para peixe de bico são os primeiros dez metros logo atrás do turbilhão do hélice. Eles surpreendem-nos….



Se tiverem uma ponta de rocha com alguma corrente, um peão de pedra afastado de terra com espuma, um sítio bom onde o robalo pode trancar um cardume de peixe-rei contra a pedra, ou contra a praia, então não hesitem: deixem de lado o cais de desembarque e pesquem em paz, em silêncio, porque a pesca é antes de mais um acto de contemplação do mar. A pesca é para quem gosta de mar.



Vítor Ganchinho



Comentários

Enviar um comentário